Era uma noite chuvosa,
relâmpagos cortavam o céu como espadas brilhantes seguidas pelo som do choque
de escudos em um campo de batalha, ao menos, era como aquelas noites pareciam
ser. Noites em que a chuva castigava toda a terra por onde passava deixando sua
marca.
Foi em uma noite tal qual
essa que Pietro veio ao mundo, e na mesma noite em que seu pai se transformou
em uma estrela. Você, caro ouvinte, deve estar se perguntando: Como pode um homem
se tornar uma estrela?
Na verdade é até bem simples,
mas só entendendo onde isso aconteceu você compreenderá melhor. Este é
Laidnnom, um mundo lindo e vasto ao qual os humanos não pertencem, mas onde
vieram parar não se sabe como.
Em Laidnnom, aquele que morre
de forma honrosa protegendo aqueles que ama recebe como honraria o dom de
tornar-se uma estrela, e foi o que aconteceu com Pierre. Que morreu durante a
batalha de Galahar-zimbur, protegendo sua família e todos os povos de Laidnnom.
Foi uma batalha sangrenta, e Pierre não pensou duas vezes em arriscar sua vida
se isso significasse que se não todos, ao menos a maioria sairia de lá com
vida. E em momento algum da batalha deixou de pensar em sua esposa e em seu
filho que ainda iria nascer.
Naquela noite enquanto ele
lutava bravamente contra o exército de Deméter, sua esposa dava a luz um
menino, tão pequeno e frágil que parecia errado ele nascer em lugar tão hostil.
E tudo que sua mãe pode dizer enquanto parte de sua voz era abafada pelo som de
trovões foi seu nome, Pietro.
Seu pai foi juntar-se a
constelação d’O Cavaleiro, onde ele era a ponta da espada. Maior honra jamais
seria dada a um humano.
Pietro cresceu com a mãe e o
restante de sua família cuidando do Aeraecircus no Reino do Sul, era uma
família especial, diferente de outros humanos que vieram para Laidnnom, os Kallix
eram uma família de Domadores de Dragões, e já estava mais do que na hora de o
legado ser passado à Pietro.
***
_Querido, se você não quiser
podemos esperar mais um pouco. _ sua avó dizia com cautela.
_Não! _ rebateu sua mãe com
seu inabalável bom-humor _Pietro consegue aquilo que ele decidir que quer
fazer!
O menino estava parado perto
do picadeiro, vestia botas e luvas de couro e uma roupa feita de tecido bem
resistente, colocou um par de antigos óculos de aviador que seu tatará-tatará-tatará-tatará-tatará-avô
trouxe da Terra quando veio para esse mundo, seu cabelo ondulado castanho
escuro ficava bagunçado e apontando para ângulos estranhos, sua pele era
bronzeada pelo sol dos Desertos Selvagens onde ele cresceu.
Respirou fundo e entrou no
picadeiro, ficou lá, olhando a criatura parada a sua frente. O dragão o
encarava de volta, seu nome era Faia, era a dragão de sua mãe.
_Tem certeza de que ela vai
deixa-lo montar? _ tia Vivi perguntou para Cristiane com os olhos meio
arregalados, ela era a única Kallix que jamais havia conseguido montar em um
dragão. Cris dizia que era um trauma de infância.
_Mamãe, eu não posso ouvi-la.
_ Pietro falou para Cris _Como vou voar sem saber como dizer pra onde vou?
Cris olhou para o dragão.
_Faia. _ ela disse na língua dos dragões de vitae _Confio a você a proteção e o aprendizado de
meu filho. Ele ainda é um filhote, como pode ver ainda não aprendeu a falar.
_Eu notei. _ Faia respondeu em sua voz de sino _Vou tomar cuidado e protege-lo. Não se preocupe.
_Sei
que não preciso. _Cris
respondeu se curvando para o dragão que devolveu o cumprimento curvando seu
longo pescoço cor de esmeralda.
Pietro não pode deixar de
notar como Faia era magnifica, suas escamas tinham a cor de esmeraldas, e seus
olhos como ametistas, suas presas eram brancas como mármore puro exposto ao
sol. Sem sombra de dúvidas um dragão admirável.
_Vá querido. Não quer deixar
Faia esperando.
_Certo. _ ele concordou e foi
em direção ao dragão.
Parou diante dela e se curvou
em sinal de respeito, ela devolveu o cumprimento assim como havia feito com
Cris. Ele subiu em suas costas e se alojou em uma pequena sela que pertencia a
sua mãe. Ele checou bem para se assegurar de que estava bem firme ali, afinal,
ele não estava com muita vontade de tentar um salto livre em direção ao solo
estando a muitos pés de altura.
Faia estendeu suas asas que
de uma ponta a outra tinham quase o dobro do comprimento de seu corpo medido do
focinho até a ponta de sua cauda. Com um leve rugir e um bater de asas que fez
o feno voar para longe eles estavam no ar, e se impulsionando mais e mais para
cima.
Pietro olhava para o circo lá
embaixo que ficava cada vez menor, e menor, e menor, até ser apenas um ponto
naquela imensidão vermelha e árida do Deserto Selvagem. Antes que percebesse,
Faia mergulhou em direção ao solo e no meio do trajeto estendeu suas asas e
começou a planar.
Tudo desde o mergulho, tudo
causava pulsações de adrenalina por todo o seu corpo. Logo ele perdeu o medo e
estava com seus braços estendidos como se pudesse abraçar o mundo, como se
fossem do tamanho das asas de Faia. Já ela, parecia se divertir como nunca, era
como se pudesse sentir o que o filhote sentia, para ela era como voar pela
primeira vez depois de sair do ninho.
Com um bater de asas lento e
forte Faia subiu acima da camada de nuvens que tapava o sol. Era uma visão
esplêndida, as nuvens estavam abaixo de Faia como um longo tapete que se
estendia e tapava qualquer visão da Terra, os raios de Sol manchavam esse
tapete de dourado, e o céu era cristalino. Para Pietro aquela era a primeira
vez que ele voava, e seria uma sensação que ele jamais iria esquecer.
Uma rajada de ar mais forte
quase o desequilibrou, mas nada que o pudesse assustar, mesmo tão jovem Pietro
já tinha o coração de um domador, e isso para Faia era fácil de reconhecer.
_Você foi tão bem! _Cris
falava exaltada enquanto abraçava o filho.
_Foi incrível! Era como se eu
fosse Faia! Voar é a coisa mais incrível do mundo! _ os olhos de Pietro
brilhavam como estrelas.
Vivi apenas sorria e se
mantinha a uma distância que achava segura de Faia, pelo visto ela não vai
perder o medo de Dragões tão cedo.
_Agora vá se lavar. Sua avó
preparou seu jantar favorito para comemorar seu primeiro voo.
Pietro afagou o longo pescoço
de Faia em sinal de agradecimento e saiu correndo para fora do picadeiro em
direção a casa.
Enquanto isso no Reino do
Oeste uma jovem e seu parceiro canino caminhavam tranquilamente por uma estrada
de terra batida, pelo visto não muito usada, mas nem por isso menos bela. A
grama verdejante se arrastava preguiçosamente em direção à um lago mediano,
suas águas contavam com um tom de verde que ela só vira poucas vezes quando
viajou por mar. Árvores baixas cresciam à margem do lago, o único ser vivo ali
além da jovem e seu cão parecia ser uma garça que estava empoleirada em uma
dessas árvores.
A jovem jogou sua mochila no
chão, tirou as botas e se jogou na água.
_Ming! _ ela chamou e o cão
pulou na água junto com ela.
Passaram-se assim quase uma
hora. Ela saiu da água e ficou deitada ao sol se secando.
_Para onde vamos agora Ming?
_ perguntava para o cão, que latiu em resposta _Eu também não sei, mas a
Rapsódia não está pronta, não podemos aparecer diante do rei de mãos vazias. O
que faremos...
A brisa movia a grama de um
lado ao outro, o som de uma cachoeira tão próximo só poderia significar que
havia sido construído um pequeno dique e que ele não era capaz de conter toda a
água.
A jovem se levanta e segue o
som, realmente havia um dique de madeira ali, a água era desviada por um
pequeno canal, com certeza para algum povoado.
_Vamos Ming. Vamos procurar
uma aventura para nossa Rapsódia!
Pegou sua mochila, calçou as
botas e voltaram a caminhar, dessa vez seguindo o curso do canal, o povoado não
devia ser muito longe.
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