A caminhada levou ¼ de dia,
mas valeu a pena para encontrar um lugar para passar a noite que ao menos
tivesse uma cama. Era um povoado pequeno, as casas eram construções redondas de
pedra e barro, telhados forrados em palha, crianças correndo em meio a sujeira,
a fome estampada no rosto dos mais velhos, ela já tinha visto muitos lugares
assim, desde a morte do antigo rei quando o irmão da rainha assumiu um trono
que não era seu por direito. Ele pouco se importava com seu povo. Poder. Poder.
Poder. Parecia ser tudo o que importava na Capital Oeste.
Um lugar que servia tanto de
taberna quanto estalagem ficava no que deveria ser o centro do povoado. Ela
entrou ali.
O lugar era mal iluminado e
fedia a vômito e cerveja, atrás do balcão um homem gorducho de cabelo grisalho
e sujo limpava uma caneca de osso enquanto falava com outros homens, em sua
maioria bêbados.
_Vou querer um quarto. E uma
garrafa de uísque, o mais forte que tiver.
_Não é meio jovem para estar
bebendo assim criança. _ ele riu sendo acompanhando por seus amigos.
Ela colocou sobre o balcão
duas moedas de ouro, isso bastou para faze-los calar a boca.
O taberneiro chamou sua filha
para que ela guiasse a jovem até o quarto onde ela poderia pernoitar.
_É aqui.
_Obrigada.
Assim que a barda entrou com
seu cão no aposento a moça já havia sumido. O quarto era simples e estava meio
empoeirado e com um cheiro de mofo. A primeira coisa que fez foi abrir uma janela
para o ar puro entrar.
Deixou a mala ao lado da cama
e foi se preparar para descansar. Soltou a faixa de tecido vermelho que levava
na cabeça deixando a mostra suas orelhas não tão pontudas quanto a de um elfo
de sangue puro, mas mesmo assim que não eram humanas. Uma meio-elfo.
E não era qualquer meio-elfo,
era Fain, a Barda.
Depois de esconder a mochila
em um canto, ela pegou o alaúde e se preparou para voltar ao salão da taverna.
_Vigie minhas coisas Ming.
Gastei duas peças de ouro pra você poder ficar no quarto. _ falou enquanto saia
pela porta e escondia as orelhas.
_Mas o que digo é verdade! _
um dos homens que conversavam com o taverneiro quando Fain chegou dizia
enquanto batia no balcão.
_Calado homem. Se o Senhor do
Oeste souber do que falas será um homem morto. _ advertia o taverneiro em voz
baixa.
_Como se ele se interessasse
por seus súditos. _ cuspiu o homem.
_Mas se interessa pelo que
vocês falam. _ Fain se intrometeu _Se fosse você eu teria mais cuidado, nunca
se sabe quem está ouvindo o que você diz.
_Não te ensinaram a não se
meter na conversa dos outros criança? _ um homem mais velho que o taverneiro e
seu amigo falou em tom acusatório.
_Me ensinaram que é me
metendo nessas conversas que consigo pistas para uma boa aventura.
_Você ainda é muito jovem
para buscar aventuras. _ riu o taverneiro.
Fain deixou escapar um leve
suspiro exasperado.
_Façamos da seguinte forma _
ela começou enquanto abria a capa do alaúde _Toco uma de minhas canções em
troca de vocês me contarem as histórias que conhecem.
_Deixe disso criança. _ o
taverneiro dizia naquele mesmo tom de voz arrastado.
_Vamos lá, pode ser
divertido. _ opinou o outro.
_Que mal pode haver em uma
canção? _ dizia o mais velho do três com uma piscadela para Fain.
Sentada sobre o balcão deixou
seus dedos correrem pelos primeiros acordes, passando por um dedilhado rápido,
e começou a cantar:
“Através da neblina no Mar de Vidro
Além das Muralhas de Coral
Há muito tempo atrás
Em um reino distante
Viveu uma sirena
Sua história começa assim:
E amanhã
Quando as ondas se quebram na
areia
Deixando para quem quiser ver
As lágrimas de quem amou Nereida
Houve um bardo
Que cansado de apenas trovar
Os feitos de outros
Buscou sua própria aventura
Algo novo para cantar
Em um reino longe daqui
Depois da floresta escura
Depois de à todos perguntar
Teve fim sua procura
E amanhã
Quando as ondas se quebrarem na
areia
Deixando para quem quiser ver
As lágrimas de quem amou Nereida
Ele soube de uma jovem
Que todas as noites chorava pelo
amado
Um cavaleiro que durante as
primeiras guerras
Para longe foi levado
Arauto algum sabia lhe dizer
Como lá chegar
Como enxugar as lágrimas
Da Senhora daquele mar
O Bardo encontrou um mago
E esse assim lhe disse:
Através da neblina no Mar de Vidro
Além das Muralhas de Coral
E amanhã
Quando as ondas se quebrarem na
areia
Deixando para quem quiser ver
As lágrimas de quem amou Nereida
Partiu em busca de sua amada
Aquele nada dela sabia
Armado apenas de seu amor e sua
harpa
Atravessou o Mar de Vidro
Além do Reino Norte
Arriscou a vida na Muralha de
Coral
Desafiando mais de uma vez a
morte
Lá encontrou a dama de olhos
escuros
Tez tão pálida quanto a lua
Exibindo sobre um rochedo
A exuberância da beleza nua
O Bardo declamou seu amor
Contido em sua mais perfeita
canção
Nada porém bastava
Nada a faria entregar seu coração
Nereida amava outro
Amava seu cavaleiro
Talvez seja o que outros já
cantaram
E chamaram de amor verdadeiro
Bardo voltou para o Norte
Onde seus feitos contou
Com um sorriso triste nos lábios
Disse que no rochedo as lágrimas
deixou
E amanhã
Quando as ondas se quebrarem na
areia
Deixando para quem quiser ver
As lágrimas de quem amou Nereida
Se fechar seus olhos poderá ver
Através da neblina do Mar de
Vidro
Basta crer
Além da Muralha de Coral
Está a sereia
Onde a voz dos apaixonados clama
por Nereida.”
Os aplausos que se seguiram
vieram não apenas dos que estavam na taverna quando a música começou, mas
também daqueles que por ali passavam e gastaram um pouco de seu tempo para
apreciar aquela canção. Fain deixou que o último dedilhado morresse entre seus dedos
de forma lenta enquanto se virava para o taverneiro:
_Mereço ouvir ao menos uma
das histórias que conhece taverneiro?
O taverneiro parecia
congelado com a caneca de osso em mãos o pano que usava para limpa-la caído e
esquecido sobre o balcão.
_Há anos que não ouço alguém
executar tão bem A Paixão do Bardo Errante. _ o mais velho aplaudiu.
_Como o senhor... _ Fain
tentou perguntar.
_Não pensou que era a única a
viajar quando ainda jovem? _ ele perguntou de forma picara.
Algo naquele homem diferia
dos demais, mesmo que trajasse as mesma roupas sujas, e tivesse as mesmas
marcas deixadas pela fome em seu rosto, algo em seus olhos era a prova de que
aquele homem vira bem mais do que todas essas pessoas é ao menos capaz de imaginar.
Ele se levantou e fez um gesto para que Fain o seguisse, ela não pensou duas
vezes, guardou o alaúde e saiu em sua companhia.
Eles tiveram uma certa
dificuldade para atravessar por entre as crianças que corriam a volta da barda
pedindo por mais canções, e foram se sentar à sombra de uma árvore alta, que
estendia sua sombra sobre a grama queimada do sol. Não demorou muito para que as
crianças que pediam a Fain outras músicas se unissem aos dois esperando por uma
história.
_Meu nome é Garret, O Viajante,
filho de Gareth, O Menestrel. E o que conto para vocês é a história de uma
guerra. _ as crianças se mexiam inquietas antecipando o que viria _Os meninos
não precisam cochichar, nem as meninas tapar seus ouvidos, essa é a história
que todos devem conhecer, a história que ser algum nos nove reinos deve
esquecer. Vou contar a todos sobre o Circo dos Dragões e como um homem se
tornou uma estrela:
Na fronteira entre os
Desertos Selvagens e o Reino do Sul está o estreito de Galahar-zimbur, palco da
maior guerra já vista na história deste mundo. Mas é no centro do deserto que
vive nosso herói: Pierre, O Domador de Dragões.
Nos Desertos Selvagens o
vento que corre durante o dia é quente e o céu abrasador contrasta com a
vermelhidão da areia, um vento que cria e desmancha dunas durante todo o dia e
toda a noite. Alguém que não saiba se guiar pelas estrelas, que não conheça
aquele deserto é capaz de se perder por apenas tirar uma noite para descansar.
Mas aos conhecedores das coordenadas, aqueles que sabem se guiar pela
constelação d’A Serpente e d’O Cavaleiro, sabe que a mais brilhante estrela da
cauda da serpente aponta a direção a seguir para chegar ao Aeraecircus. Lar da
família de Domadores de Dragões.
Quando jovem eu segui essa
estrela. Na época o Reino do Sul, habitado por elfos estava em guerra com os
humanos do leste, decididos a erradica-los deste mundo. Mas eu era jovem, não
queria saber de guerras, eu queria chegar ao lugar que ouvi nos poemas de meu
pai, ele dizia assim:
“Depois do estreito de pedra
Pegue
a serpente pela cauda
Vai
andar até seus pés sangrarem
Mas
não perderá a calma.
Para
todo o viajante
Que
na mudança das dunas não se desespera
Ao
fim de tão incrível jornada
Uma
recompensa o espera
Ali
onde uma tenda de escamas se ergue
Um
dragão adormecido, qual quimera
Abre
suas asas para nós
Seus
olhos ametistas de luz efêmera.
Sai
de dentro da tenda
Anda
a nós com a postura de um Deus pagão
Aquele
que comanda a besta:
O
Domador do dragão.”
Tudo o que já havia visto, tudo o que viria a
ver em nada se compararia à visão de um cavaleiro montado em um dragão. E não
era qualquer dragão, seu nome era Aran.
E que dragão era aquele! Com
escamas que brilhavam como cristal puro refletindo o brilho do sol que aquece
os Desertos Selvagens, presas marmóreas afiadas como adagas e olhos azuis
penetrantes que pareciam pedras que deveriam compor a coroa do próprio rei.
Vê-lo voar era um espetáculo que todos deveriam ser capazes de apreciar.
Infelizmente, da mesma forma
que a guerra alcançou os demais reinos, ela também chegou ali. Durante a noite
enquanto todos se recolhiam eu me esgueirei por entre as tendas em busca de
poder olhar aquele dragão mais uma vez e pude escutar enquanto o Domador e sua
esposa conversarem, suas vozes baixas e abafadas, mas eu tinha um ouvido
treinado.
_Você não precisa ir.
_Eu preciso ir Cris. Não
posso deixar que a guerra chegue até o AERAE... Até você.
_Eu não quero que você vá. _
a voz dela era quase uma suplica _Nós dois não queremos.
_... Dois?
_Seu filho também gostaria de
tê-lo por perto. _ ela sussurrou.
O silêncio reinou, um suspiro
que deixava no ar o tom de um sorriso e em seguida a quebra dele.
_Mais um motivo para que eu vá.
Manter os dois seguros, manter a guerra longe de vocês.
_Pierre... _ dava para sentir
sua voz quebrar em dizer seu nome.
No dia da partida eu os vi se
despedir, as lágrimas derramadas, as palavras sussurradas. Fui até onde estava
Aran, na espera de que Pierre o montasse e partisse para a guerra.
_O que faz aqui? _ Pierre me
questionou enquanto prendia uma sela de couro nas costas de Aran.
_Vai mesmo partir? _ o
questionei.
_Preciso. Você nos ouviu _
quando ele disse isso senti que eu empalidecia _Tudo bem. Mas sabe que não
posso deixar que a guerra chegue aqui.
_Você pode morrer lá.
_Nunca disse que planejava
sair de lá com vida. Se morrer nessa guerra significar que minha família será
poupada, não me importo em perder minha vida se for o bastante para por fim a
guerra.
Eu não podia aceitar aquilo.
_Mas você é só um.
_Não. _ ele sorriu _Aran e eu
somos só um. Faria o mesmo por Faia, não é meu amigo? _ ele falava para o dragão
enquanto pousava a mão sobre o longo pescoço cristalino.
Aran curvou seu pescoço e
fechou os olhos lentamente como quem concorda com o que o outro disse.
Enquanto ele partia sua família
observava até o cavaleiro e seu dragão desaparecerem além das nuvens.
Cinco meses após aquilo, eu
ainda estava no AERAE aguardando que ele voltasse. Naquela noite uma tempestade
cortava os céus do Deserto Selvagem, o local onde o AERAE ficava não possuía areia,
mas sim pedra, onde por vezes em algumas épocas do ano a chuva tornava possível
o surgimento das flores do deserto. Mas aquela tempestade parecia mais disposta
a destruir tudo.
Enquanto relâmpagos e
trovoadas cortavam o céu da mesma forma que espadas e escudos eram cruzados no
campo de batalha, Cris dava a luz um menino, herdeiro do Domador de Dragões. Foi
nessa mesma noite que uma estrela se juntou a constelação d’O Cavaleiro, e eu
sabia, dentro do meu coração que Pierre e Aran nos haviam salvado, e era a alma
dos dois que se mesclava e dava vida aquela que seria a mais brilhante estrela
daquela constelação.”
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